quinta-feira, 30 de maio de 2013

Menina, morreu no banheiro?



Contos de Kat Taibhseach


- Menina, morreu no banheiro?

Ignorei aquele grito. E continuei lá por mais quinze... ou vinte minutos, imóvel, sentindo a água quente queimar as minhas costas... livre de sentimento de culpa pelo desperdício de vários litros de água tratada.

Eu não faço isto todos os dias, não faço nunca para dizer a verdade... só hoje que demorei porque me deu vontade de escrever o nome completo dele no vidro embaçado do boxe.

Engraçado que antes de desenhar a quarta letra, já não vejo mais a primeira.

É um nome tão gostoso de desenhar o dele..
Menina!

Já vou, mãe! Já vou...

Mas não fui...

Meu pensamentos foram invadidos pelo Dançarino de Bratislava.

Eu estava...

Nos braços de outro rapaz, me deixando levar pelo compasso dos violinos que sussurravam lembranças aveludadas do último inverno em Bratislava...

A música me reaproximava de meu amado. Onde estaria  Frantisek?

Longe dali,  ele vagueava em quarto minguante pelas ruas estreitas da cidade. Descalço. Louco talvez, sempre a ensaiar uma valsa forjada de dois passos.

Pobre homem, tão jovem e belo. Nas ruínas de sua mente, apenas violinos, Bratislava e o inverno.

Mais uma vez..

Menina!

Já vou, mãe! Já vou...

Mas não fui...

Gargalhei ao lembrar da Cueca Nova de Frantisek


De repente, cueca nova! O medo da novidade. 
-- Não gostou? – perguntou o rapaz.

Ela precisava pensar com calma na resposta certa, afinal, era insegura e muito nervosa.

-- É nova. – disse ele, ansioso.

Sim, ela tinha percebido que a cueca era mais branca que o lençol, mas o que havia de
errado com as outras cuecas? Com que propósito ele faz uma coisa dessas depois de tantos anos de casamento?  Ela o conhecia como a palma da sua mão e agora... 

Espere...! ela não reconheceria a própria palma da mão no meio de centenas de fotos de outras palmas.

-- Não gostou? é nova. – massacrava o moço.

Que martírio, por que precisava passar por aquilo? Não estava mais suportando aquele silêncio, queria gritar o que estava sentindo, precisava saber o que aquela cueca nova representava para ele, se era algum tipo de ameaça ou algo do tipo.
Estava prestes ter uma síncope.

-- Por que comprou cueca nova? – ela perguntou calmamente depois de mentalizar lilás.
-- Ganhei da mamãe.
-- Por um acaso ela acha que você não tem cueca em casa?
-- Não é isso, ela quis me dar um presentinho, apenas. Não gostou?
-- É nova. Sua mãe sempre com segundas intenções, pois saiba que suas antigas cuecas são
mais limpas do que os talheres com que sua mãe enfeita a mesa do jantar!
-- Ei, eu sei... não leve tudo tão a sério, é apenas uma cueca nova.
-- É apenas a sua mãe, como sempre!
-- Pronto, se o problema é a mamãe, então eu tiro a cueca. Não precisa chorar!
-- Agora você deve estar pensando que sua mãe tem razão quando me acusa de ser uma
louca. Quanto drama por causa de uma cueca que tem seu número de solteiro, não é
mesmo?
-- Eu não estou pensando em nada. Estou sem cueca.
-- Eu gostaria que você vestisse uma cueca conhecida e que me acalmasse dizendo que não
está me traindo ou coisa parecida.
-- Eu não aprontei nenhuma! e pronto, já vesti a cueca velha!
-- Não fale assim da cueca que vive com você há anos, que o protege, que o compreende!
Você sempre volta estranho lá da casa da sua mãe!
-- Se é para sua felicidade, não irei mais à casa de mamãe! Vamos dormir, agora?

Ele se acha muito esperto, mas ela viu muito bem quando ele escondeu a cueca nova
embaixo do travesseiro.

Menina!

Já vou, mãe! Já vou...

QUEM CONTA UM CONTO AUMENTA UM PONTO!!!!
Espero que goste KAT!

Ilustração: Livre Sabiá

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